
Por muito tempo, falar sobre dinheiro pareceu errado.
Crescemos ouvindo frases que colavam na memória como um chip — “Apaga a luz! Tu é sócio da empresa de energia?” —, frases que, sem que a gente perceba, foram moldando uma relação de escassez, de medo e de silêncio. E esse silêncio foi caro, porque quando não falamos sobre dinheiro, também não aprendemos a lidar com ele, apenas sobrevivemos a ele.
Para muitas mães empreendedoras, essa relação ficou ainda mais complicada, porque o dinheiro foi colocado num lugar distante, técnico demais, quase como se não fizesse parte da vida real — da vida que acontece entre um filho que chora e uma entrega que precisa sair. Mas quando você decide empreender, essa relação muda completamente: o dinheiro deixa de ser apenas um assunto e passa a ser ferramenta, passa a ser escolha, passa a ser responsabilidade e, principalmente, passa a ser direção.
No livro, quando trago o dinheiro como uma das seis riquezas da vida, não é para colocá-lo acima das outras, mas para colocá-lo no lugar certo — porque ele saiu do lugar há muito tempo. O dinheiro não é o fim nem o destino da caminhada, ele é meio, ele é ponte, é o recurso que permite sustentar decisões, proteger o que importa e construir com mais autonomia. Mas, para que ele cumpra esse papel, ele precisa estar alinhado com consciência, com verdade e com maturidade.
Eu mesma aprendi isso na dor. Lembro do início da carreira como jornalista, do meu primeiro salário de R$ 800, da comparação que me diminuiu numa reunião de família e de como aquilo ficou tatuado por dentro durante tanto tempo. Só muito depois entendi que o desconforto não estava no valor em si, mas na minha relação com ele, na crença profunda de que quanto eu ganhava definia o quanto eu valia. E é exatamente essa crença que precisa ser ressignificada.
O que mais vejo são empreendedoras tentando crescer financeiramente sem antes organizar a base, correndo muito, entregando demais e colhendo frustração como resultado. Porque não é o quanto entra que define o resultado, é o que você faz com o que entra — é a forma como você olha, como você decide, como você direciona o que já está nas suas mãos. Dinheiro sem intenção vira desgaste, enquanto dinheiro com clareza vira construção.
Existe uma crença silenciosa que precisa ser quebrada, que é a de que falar de dinheiro é superficial ou egoísta. Não é, e essa confusão nos custou muito. Dinheiro é estrutura, é segurança, é possibilidade e é uma das riquezas que sustenta as outras cinco, porque sem ele fica mais difícil cuidar da saúde, do tempo, das relações, do conhecimento e da espiritualidade. Quando você aprende a lidar com ele com maturidade, você para de viver no improviso e começa a viver com escolha, e isso muda tudo.
Não espere ganhar mais para começar a cuidar melhor, porque essa é uma das armadilhas mais comuns e também das mais dolorosas. A organização não começa no excesso, ela começa no pouco, e é no pouco que se desenvolve disciplina, percepção e responsabilidade, é no pouco que se aprende a valorizar o que se constrói e é exatamente isso que sustenta o crescimento real depois.
Empreender com leveza não significa ignorar os números, significa olhar para eles sem medo, sem culpa e sem o peso de uma história que nunca foi sua. Significa entender que prosperar é um desejo legítimo, que ganhar dinheiro com o que você ama não diminui quem você é — pelo contrário, fortalece sua autonomia — e que cuidar do financeiro é, sim, uma forma profunda de cuidado com a própria vida.
O dinheiro não precisa ser uma fonte de ansiedade constante, ele pode ser um aliado consciente, uma ferramenta de expansão, de estabilidade e de realização, mas isso só acontece quando você escolhe assumir o controle da forma como se relaciona com ele, com presença, com intenção e com direção.
Porque no fim das contas, não é sobre quanto você tem, é sobre o que você constrói com o que já está nas suas mãos.
Dá o passo que o universo dá o chão.
Simone Ferreira Rabuske. Autora dos livros Mãe empreendedora sem culpa e Muito além do dinheiro, profissional da comunicação com mais de 30 anos de experiência, empresária, empreendedora e mãe. @simonedafrente



