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Você está vivendo ou só reagindo? O tempo como espaço sagrado

Existe uma pergunta que assusta justamente porque a resposta, quando a gente para para buscá-la de verdade, nem sempre é a que gostaríamos de encontrar: você está de fato vivendo a sua vida ou está apenas reagindo ao que ela apresenta, apagando um incêndio depois do outro, respondendo ao que chega antes de poder escolher o que quer ir buscar? Porque há uma diferença enorme entre essas duas formas de existir, e essa diferença raramente aparece nos grandes marcos da vida, mas se revela nas horas comuns, nos dias que passam sem que você se lembre muito bem do que aconteceu, nas semanas que somem antes de você ter tido a chance de realmente habitá-las.

O tempo é, entre as seis riquezas que exploro no livro, talvez a mais democrática e ao mesmo tempo a mais injustamente distribuída na prática, porque todas recebemos as mesmas vinte e quatro horas por dia, mas nem todas conseguimos de fato escolher como usá-las, e essa diferença entre ter tempo e poder usá-lo com intenção é onde mora uma das questões mais profundas da vida contemporânea, especialmente para mulheres que são mães e empreendedoras ao mesmo tempo, que vivem com demandas que chegam de todos os lados e que aprenderam, ao longo do tempo, a colocar a si mesmas sempre no final da fila de prioridades.

Vivemos numa cultura que transformou a ocupação em virtude, que trata o descanso como recompensa para quem já fez o suficiente, como se o suficiente fosse uma linha que algum dia se alcança, e que celebra a produtividade constante como se ela fosse a prova máxima de valor de uma pessoa. E nesse ambiente, parar virou quase um ato de coragem, porque parar significa confrontar o silêncio, significa sair do modo automático que nos mantém em movimento sem necessariamente nos manter em direção, significa perguntar de verdade para onde estamos indo e se esse caminho ainda faz sentido para quem nos tornamos.

A distração, nesse contexto, não é acidente, ela é consequência de um ritmo que não deixa espaço para o vazio criativo, para a pausa integradora, para o momento sem propósito definido onde a mente descansa e o coração encontra o que havia perdido na velocidade do dia. O celular na cama antes de dormir, a série que começa “só por um episódio”, a rolagem infinita pelo feed sem que nada realmente alimente, tudo isso muitas vezes não é lazer verdadeiro, é fuga do silêncio, é a forma que encontramos de não ficar a sós com as perguntas que não temos tempo de responder porque nunca paramos o suficiente para ouvi-las. E o resultado é que chegamos ao fim do dia exaustas, mas não descansadas, ocupadas, mas não realizadas, ativas, mas não presentes.

Presença é uma palavra que ficou muito usada, mas que perdeu um pouco da sua profundidade no caminho, porque presença não é apenas estar fisicamente num lugar, é trazer consigo a atenção, a consciência e a abertura para o que esse momento tem a oferecer, e isso é raro numa vida que nos treinou para pensar sempre no que vem a seguir, para planejar enquanto executamos, para estar no trabalho enquanto pensamos nos filhos e estar com os filhos enquanto pensamos no trabalho, vivendo sempre numa terra de ninguém entre o que está acontecendo e o que precisa acontecer depois.

Lembro de momentos na minha própria trajetória em que o tempo passava rápido demais e eu não conseguia identificar onde ele tinha ido, em que os dias se acumulavam cheios de tarefas concluídas mas esvaziados de significado, em que eu estava em tudo e em nada ao mesmo tempo, presente em forma mas ausente no que realmente importava. E foi nessa experiência, que imagino que muitas de vocês conhecem de perto, que comecei a entender que o tempo não é apenas um recurso a ser gerenciado, mas um espaço a ser habitado, e que a forma como habitamos esse espaço define, muito mais do que qualquer conquista externa, a qualidade da vida que estamos de fato vivendo.

Porque é no tempo que acontece tudo que importa de verdade, é no tempo que os filhos crescem e que os momentos com eles se tornam memórias ou lacunas, é no tempo que as relações se aprofundam ou se esvaziam, é no tempo que o corpo manda sinais que ignoramos até que não ignorar mais se torna obrigatório, é no tempo que os sonhos encontram ou não o espaço que precisam para deixar de ser sonhos e começar a ser realidade. O tempo não é apenas o cenário onde a vida acontece, ele é parte essencial do que a vida é, e quando não o reconhecemos como a riqueza que é, acabamos gastando-o como se fosse infinito, sem a consciência de que cada hora que passa sem intenção é uma hora que não volta.

A reconexão com o que importa começa, quase sempre, por uma pausa que parece pequena mas que é, na prática, revolucionária, que é a pausa de perguntar genuinamente para si mesma o que está fazendo com o tempo que tem, não o tempo dos projetos grandes ou das metas anuais, mas o tempo do dia de hoje, das próximas horas, do espaço entre o que acabou e o que ainda não começou. E essa pausa não precisa ser uma viagem, um retiro ou uma semana de férias, porque a reconexão não mora necessariamente nos grandes intervalos, ela mora na qualidade da atenção que você traz para os intervalos que já existem na sua vida e que você passou anos preenchendo com ruído sem perceber.

Há algo de sagrado no tempo que não está comprometido com nenhuma entrega, nenhuma expectativa e nenhuma obrigação, e chamar isso de sagrado não é exagero, é o reconhecimento de que existem dimensões da vida que só se revelam quando a gente cria espaço para elas, dimensões de criatividade, de intuição, de conexão afetiva, de espiritualidade, de autoconhecimento, que não sobrevivem num ritmo que não deixa brechas. A mulher que nunca tem tempo para si mesma não está apenas cansada, ela está gradualmente se distanciando de quem é, e esse distanciamento tem um custo que vai muito além da produtividade, porque atinge a clareza, a alegria, o senso de propósito e a capacidade de fazer escolhas alinhadas com o que de fato valoriza.

Viver com intencionalidade não significa ter uma agenda perfeita ou um sistema de produtividade impecável, significa fazer escolhas conscientes sobre onde coloca sua atenção, o que permite entrar na sua vida e o que decide, com gentileza mas com firmeza, deixar de fora. Significa entender que dizer sim para tudo é, na verdade, dizer não para o que importa mais, porque o tempo é finito e cada hora dada a algo é uma hora subtraída de outra coisa. E quando você começa a enxergar o tempo com essa clareza, começa a perceber que muitas das coisas que ocupavam sua agenda não eram prioritárias, eram urgentes, e que urgência e importância são conceitos muito diferentes que frequentemente se confundem num ritmo de vida que não deixa espaço para distingui-los.

O convite que esse capítulo do livro faz não é para que você desacelere num sentido ingênuo, ignorando as responsabilidades reais da vida que tem, mas para que você recupere a autoria do próprio tempo, para que volte a ser quem decide como viver as horas e não apenas quem reage ao que elas trazem, para que encontre dentro da sua rotina, por mais cheia que ela esteja, os espaços onde você pode simplesmente ser, sem precisar produzir, performar ou entregar nada a ninguém além de si mesma.

Porque a vida não está esperando você terminar de resolver tudo para começar de verdade, ela já está acontecendo agora, nesse momento, e a pergunta que fica é se você está presente o suficiente para perceber.

Dá o passo que o universo dá o chão.

Simone Ferreira Rabuske. Autora dos livros Mãe empreendedora sem culpa e Muito além do dinheiro, profissional da comunicação com mais de 30 anos de experiência, empresária, empreendedora e mãe. @simonedafrente

Simone Ferreira Rabuske

Simone Ferreira Rabuske é mentora em Comunicação e Empreendedorismo, e a pessoa ideal para ampliar seu conhecimento e levar a sua capacidade empreendedora para um novo patamar.