
Tem uma forma de pobreza que o extrato bancário não mostra e que nenhum contador consegue medir, que é a de atravessar a vida sem ter ao redor pessoas que realmente vejam você, que segurem junto quando o peso fica grande demais, que acreditem no que você está construindo mesmo nos dias em que você mesma duvida. Essa é uma das formas mais silenciosas e mais devastadoras de escassez que existem, e ao mesmo tempo, quando o oposto acontece, quando as pessoas certas estão presentes, a vida inteira parece ter uma sustentação diferente, uma base que não aparece em nenhuma planilha mas que se sente em tudo.
No livro, quando falo das pessoas como uma das seis riquezas da vida, faço isso com a convicção de quem aprendeu o valor disso não só pela teoria, mas pela experiência vivida, pela trajetória real de empreender, de ser mãe, de construir uma carreira e de perceber, ao longo do caminho, que nenhuma conquista que importa de verdade foi alcançada sozinha. Sempre houve alguém. Um olhar que animou quando o cansaço batia. Uma palavra dita no momento exato. Uma presença que não precisava falar nada para que você se sentisse menos sozinha no que estava enfrentando. Isso é riqueza, e das mais concretas que existem, mesmo sendo invisível para quem olha de fora.
A cultura do empreendedorismo, especialmente a que circula nas redes sociais, cultiva com muito entusiasmo a ideia de que o sucesso é uma jornada individual, que os fortes chegam sozinhos, que depender de alguém é sinal de fragilidade. E essa narrativa, além de falsa, é muito cara para quem acredita nela, porque leva pessoas talentosas e dedicadas a recusarem ajuda quando precisam, a não construírem redes de apoio porque sentem que deveriam dar conta sem elas, a se isolarem justamente nos momentos em que a conexão seria o recurso mais valioso que poderiam ter. A verdade, que quem empreende por tempo suficiente inevitavelmente aprende, é que os negócios que crescem de forma sustentável são aqueles construídos por pessoas que souberam se cercar das pessoas certas, que souberam reconhecer em quem confiar, em quem delegar, em quem buscar parceria e em quem simplesmente se apoiar nos dias difíceis.
Mas há uma distinção importante que precisa ser feita aqui, porque não é qualquer presença que alimenta, assim como não é qualquer relação que sustenta. Existem vínculos que drenam, que consomem energia sem devolver nada, que nos mantêm ocupadas em dinâmicas que não nos fazem crescer e que, pelo contrário, nos mantêm presas em versões menores de nós mesmas. E existe também aquele tipo de relação que é diferente, que tem uma qualidade distinta, onde você termina um encontro, uma conversa, uma troca, sentindo que ficou maior do que estava antes, mais inteira, mais animada, mais capaz. Aprender a distinguir entre esses dois tipos de presença é uma das habilidades mais importantes que uma mulher empreendedora pode desenvolver ao longo da vida.
As pessoas certas não são necessariamente aquelas com quem você concorda em tudo ou com quem a convivência é sempre fácil e sem atrito, porque relacionamentos verdadeiros têm profundidade e profundidade implica complexidade. As pessoas certas são aquelas que estão comprometidas com a sua versão mais inteira, que te dizem a verdade mesmo quando ela é desconfortável, que celebram genuinamente as suas conquistas sem que isso diminua as delas, que aparecem não só nos momentos de alegria mas especialmente nos momentos em que a vida pede mais do que você achava que tinha a oferecer. Essas pessoas são raras, e exatamente por isso, quando você as encontra, elas merecem ser tratadas como a riqueza que são.
Para as mães empreendedoras, essa conversa tem uma camada ainda mais delicada, porque a maternidade e o empreendedorismo juntos criam uma demanda de energia e de presença que é diferente de qualquer outra jornada que se conheça, e tentar percorrer esse caminho sem uma rede de apoio real é uma das razões pelas quais tantas mulheres incríveis chegam ao esgotamento antes de chegar aonde gostariam. A rede afetiva que sustenta uma mãe empreendedora não é fraqueza nem dependência, é estrutura, é estratégia, é inteligência emocional aplicada à vida real. É reconhecer que você não precisa carregar tudo sozinha para merecer o que está construindo, porque o mérito não aumenta proporcionalmente ao sofrimento.
E essa rede não precisa ser grande para ser poderosa, porque às vezes uma única pessoa no lugar certo, com a presença certa, muda completamente o que você consegue fazer e como você se sente fazendo. Um marido que acredita no seu trabalho mesmo quando os resultados ainda não apareceram. Uma amiga que segura os seus filhos numa tarde para que você possa entregar um projeto importante. Uma mentora que já percorreu o caminho que você está trilhando e que te diz com segurança que é possível chegar. Uma parceira de negócios que complementa o que você não domina. Cada uma dessas presenças é um recurso, e quando você começa a enxergar as relações dessa forma, com o cuidado e a intencionalidade que elas merecem, a forma como você os cultiva muda completamente.
Cultivar relações com intencionalidade significa estar presente de verdade nas trocas que importam, significa aparecer para as pessoas que você quer que apareçam para você, significa investir tempo e energia em vínculos que são verdadeiros mesmo quando a agenda está cheia e o cansaço é real, porque as relações que a gente não rega também murcham, assim como qualquer coisa viva que precisa de cuidado para continuar existindo com qualidade. E significa também ter a coragem de fazer a limpeza que às vezes é necessária, de se afastar de relações que consomem mais do que nutrem, não com julgamento, mas com a clareza de quem está aprendendo a usar melhor seus recursos mais preciosos.
Há uma frase que carrego comigo e que diz que a gente é a média das cinco pessoas com quem mais convive, e embora a vida real seja mais complexa do que qualquer fórmula consegue capturar, existe uma verdade profunda nessa ideia, que é a de que as pessoas ao nosso redor influenciam nossa forma de pensar, de enxergar o que é possível, de reagir diante dos desafios e de acreditar no que merecemos alcançar. Por isso, perguntar quem está ao seu redor é também perguntar para onde você está caminhando, porque raramente a gente vai muito além do ambiente que habita e das pessoas que fazem parte dele.
As pessoas certas são, no fim das contas, uma das formas mais bonitas e mais concretas de riqueza que existem, porque elas não somam apenas ao negócio ou à carreira, elas somam à vida inteira, à saúde emocional, ao senso de pertencimento, à capacidade de suportar as fases difíceis sem perder o rumo e de celebrar as conquistas com a alegria que elas merecem. Elas nos lembram, nos momentos em que esquecemos, de quem somos e do quanto somos capazes.
Cuide das suas relações com o mesmo cuidado com que cuida do seu negócio, porque ambos precisam de presença, de intenção e de investimento real para florescer. E quando você encontrar as pessoas certas, as que aparecem, as que ficam, as que sustentam, reconheça-as pelo que são: uma das maiores riquezas que a vida pode oferecer.
Dá o passo que o universo dá o chão.
Simone Ferreira Rabuske. Autora dos livros Mãe empreendedora sem culpa e Muito além do dinheiro, profissional da comunicação com mais de 30 anos de experiência, empresária, empreendedora e mãe. @simonedafrente



