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Conhecimento transforma: o que você já sabe e não está usando?

Existe uma pergunta que raramente fazemos para nós mesmas, talvez porque a resposta exija uma coragem silenciosa que nem sempre estamos prontas para ter: o que eu já sei e ainda não estou usando?

Vivemos num tempo que glorifica o novo, o atualizado, o certificado, o curso recém-lançado, a metodologia importada, a formação que ainda falta concluir — e nessa corrida constante por mais conhecimento, acabamos cometendo um erro sutil e muito custoso, que é o de desvalorizar tudo aquilo que já conquistamos. A experiência que acumulamos ao longo dos anos, as decisões difíceis que tomamos sem manual nenhum, as situações que enfrentamos sem rede de proteção e que, mesmo assim, nos ensinaram mais do que qualquer sala de aula poderia ter ensinado, tudo isso fica em segundo plano enquanto buscamos o próximo aprendizado como se o anterior ainda não fosse suficiente.

E não é por acaso que isso acontece. Desde cedo nos ensinaram que conhecimento é aquilo que vem de fora, que se valida com diploma, que se mede com nota, que se prova com currículo. Crescemos acreditando que o saber legítimo é aquele que pode ser apresentado, certificado e aprovado por alguém com mais autoridade do que nós mesmas. E assim fomos aprendendo, de forma muito silenciosa, a não confiar no que já sabemos, a duvidar da própria intuição, a minimizar a própria trajetória como se ela não contasse, como se tudo que vivemos fosse apenas uma preparação para algo maior que ainda está por vir.

No livro, quando falo do conhecimento como uma das seis riquezas da vida, falo exatamente disso — dessa virada de percepção que é reconhecer o valor do que já está dentro de você. O conhecimento que transforma não é só aquele que vem dos livros ou das formações, embora eles também sejam preciosos, mas é sobretudo aquele que foi forjado na prática, na tentativa, no erro assumido, na solução encontrada no meio da turbulência, sem tempo pra pensar, apenas agindo com o que se tinha disponível. Esse conhecimento tem um nome: experiência. E experiência é um dos ativos mais subestimados que existem, especialmente entre mulheres que são mães e empreendedoras ao mesmo tempo.

Pense por um momento em tudo que você já aprendeu sem perceber que estava aprendendo. Você aprendeu a negociar quando precisou equilibrar as expectativas de um cliente com a realidade do que era possível entregar. Você aprendeu a gerir crise quando tudo deu errado ao mesmo tempo e você encontrou uma saída mesmo assim. Você aprendeu sobre pessoas, sobre confiança, sobre limites, sobre o que funciona e o que não funciona no mundo real, não no mundo teórico. Você aprendeu sobre si mesma em cada momento em que foi colocada à prova e decidiu não desistir. Tudo isso é conhecimento, e conhecimento do mais valioso que existe, porque ele não pode ser copiado, não pode ser comprado e não pode ser tirado de você.

A intuição entra nessa conversa de um jeito que merece atenção especial, porque durante muito tempo ela foi tratada como algo menor, como se fosse o oposto do racional, como se sentir antes de pensar fosse um defeito a corrigir e não uma inteligência a ser cultivada. Mas a intuição nada mais é do que o conhecimento acumulado se manifestando de forma imediata, é a sua experiência respondendo mais rápido do que sua mente consegue processar conscientemente. Quando você sente que algo não está certo num negócio, quando percebe que uma relação não vai evoluir, quando tem a sensação de que um caminho precisa ser tomado mesmo sem conseguir explicar exatamente por quê, isso não é fraqueza emocional, é sabedoria prática se expressando da forma mais direta que encontrou.

O problema não é que você não sabe o suficiente. O problema, na maior parte das vezes, é que você não confia no quanto já sabe.

Essa desconfiança tem raízes antigas e algumas delas são muito específicas para mulheres que cresceram aprendendo que precisam provar mais, se preparar mais, esperar mais um pouco antes de se posicionar. E então ficam esperando o momento certo que nunca chega, o preparo completo que nunca existe, a segurança total que é uma ilusão em qualquer área da vida. Enquanto isso, o conhecimento que já está dentro delas permanece guardado, subutilizado, esperando uma permissão que só elas mesmas podem se dar.

Conhecimento transforma quando é colocado em movimento, e colocar em movimento significa começar a usá-lo de verdade, no dia a dia, nas decisões do negócio, nas conversas com clientes, nos projetos que você ainda não teve coragem de lançar porque acha que falta algo quando, na verdade, o que falta é confiar no que você já tem. Significa também compartilhar o que você sabe, porque o conhecimento é a única riqueza que cresce quando é dividida, que se multiplica quando circula, que se fortalece quando encontra outras histórias e outras perspectivas pelo caminho.

E existe algo muito bonito nesse processo de reconhecer o próprio saber que é o que ele faz com a autoestima, com a segurança, com a forma como você se posiciona no mundo. Quando você para de se ver como alguém que ainda está se preparando e começa a se ver como alguém que já tem algo real a oferecer, tudo muda na forma como você fala, na forma como você cobra, na forma como você ocupa os espaços que sempre foram seus por direito.

Você já sabe mais do que imagina, e parte do trabalho que esse capítulo propõe é exatamente esse: olhar para dentro com a mesma curiosidade com que você olha para fora quando busca um novo curso ou uma nova referência. Fazer um inventário honesto da própria trajetória, reconhecer o que foi aprendido em cada fase da vida, inclusive nas fases difíceis e especialmente nelas, e perceber que tudo isso compõe uma riqueza que ninguém pode tirar de você.

O conhecimento que transforma não precisa ser validado por ninguém além de você mesma, e quando você entende isso de verdade, ele começa a trabalhar a seu favor de um jeito que nenhum certificado, por si só, jamais conseguirá fazer.

Dá o passo que o universo dá o chão.

Simone Ferreira Rabuske. Autora dos livros Mãe empreendedora sem culpa e Muito além do dinheiro, profissional da comunicação com mais de 30 anos de experiência, empresária, empreendedora e mãe. @simonedafrente

Simone Ferreira Rabuske

Simone Ferreira Rabuske é mentora em Comunicação e Empreendedorismo, e a pessoa ideal para ampliar seu conhecimento e levar a sua capacidade empreendedora para um novo patamar.